Como precificar produtos artesanais (doces, geleias, feito à mão)
Você passa duas horas na cozinha, usa ingredientes de qualidade, embala com cuidado — e na hora de cobrar, fica com vergonha do preço. Não é falta de confiança: é falta de conta. Saber como precificar produtos artesanais é uma das dúvidas mais comuns entre quem faz doces, geleias, granolas e outros itens feitos à mão. E o erro que mais se repete é sempre o mesmo: calcular o custo dos ingredientes e esquecer o maior custo de todos — o próprio tempo.
O que precisa entrar no custo de um produto artesanal
Produto artesanal não tem custo simples. Ao contrário de um item de fábrica, cada unidade carrega trabalho humano real — e esse trabalho tem valor. Um lote de geleia de morango, por exemplo, precisa somar cinco elementos:
- Ingredientes — fruta, açúcar, acidulante, ervas ou o que for específico da receita
- Embalagem — potes, tampas, rótulos, lacres
- Energia — gás de cozinha, luz elétrica, água
- Mão de obra — o tempo dedicado à produção, do preparo ao envasamento
- Rateio de custos fixos — se você tem espaço alugado ou equipamentos específicos, parte desse custo vai para cada lote
A maioria calcula os três primeiros e esquece os dois últimos. O resultado é um produto com preço baixo que parece atraente pra quem compra, mas que não paga quem produz.
Exemplo real: geleia artesanal de morango
Veja como fica o custo de um lote de 10 potes de geleia de morango de 250g, considerando só ingredientes e embalagem — do jeito que a maioria calcula:
Morango, 1,5 kg @ R$ 14,00/kg: R$ 21,00
Açúcar cristal, 600g (pacote 1kg @ R$ 5,50): R$ 3,30
Limão, 2 un @ R$ 0,80: R$ 1,60
Potes plásticos 250ml + tampa, 10 un @ R$ 1,20: R$ 12,00
Rótulo adesivo impresso, 10 un @ R$ 0,40: R$ 4,00
Gás + energia: R$ 2,00
Custo sem mão de obra: R$ 43,90
Custo por pote: R$ 4,39
Valores são exemplos — pesquise os preços da sua região.
Com R$ 4,39 de custo por pote, vender a R$ 8,00 ou R$ 9,00 parece garantir uma boa margem. Mas tem um número importante faltando nessa conta.
O custo que a maioria esquece: o seu tempo
Fazer 10 potes de geleia leva, em média, uma hora e meia de trabalho — lavar a fruta, cozinhar, controlar o ponto, envasar, tampar, rotular, limpar. Se o produtor atribui R$ 25,00 por hora ao próprio trabalho (abaixo de um auxiliar de cozinha com carteira assinada), o custo de mão de obra desse lote é R$ 37,50.
Somando tudo:
Ingredientes (morango, açúcar, limão): R$ 25,90
Embalagem (potes + rótulos): R$ 16,00
Gás + energia: R$ 2,00
Mão de obra, 1,5h @ R$ 25,00/h: R$ 37,50
Custo total do lote: R$ 81,40
Custo por pote: R$ 8,14
Valores são exemplos — pesquise os preços da sua região.
O custo saltou de R$ 4,39 para R$ 8,14. Quem estava vendendo a R$ 8,00 o pote estava trabalhando no prejuízo — pagando pra entregar.
A mão de obra é o maior item do custo — quase metade do total. É exatamente esse número que desaparece quando o produtor não se paga pelo próprio trabalho.
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Com o custo por pote em R$ 8,14, o preço mínimo de venda depende da margem que você quer e de onde vende. A fórmula é o markup invertido:
Preço = custo por unidade ÷ (1 − margem desejada)
Com margem de 55%:
Preço = R$ 8,14 ÷ (1 − 0,55) = R$ 8,14 ÷ 0,45 = R$ 18,09 → R$ 18,00
Se vender no iFood (Plano Básico, taxa 17,19%):
Preço no app = R$ 18,00 ÷ (1 − 0,1719) = R$ 18,00 ÷ 0,8281 ≈ R$ 21,74 → R$ 22,00
(No Plano Básico, num pedido de R$ 22,00 o iFood retém R$ 3,78 de taxa)
Para venda em feira livre ou encomenda direta, sem intermediário, R$ 18,00 já garante a margem. Para venda via plataforma com taxa, o preço sobe — e esse ajuste precisa estar calculado antes de cadastrar o produto.
Quando o cliente acha caro
Uma geleia artesanal de morango a R$ 18,00 pode parecer cara para quem compara com o pote de R$ 9,00 do supermercado. Mas esse pote industrial tem escala de milhares de unidades, conservantes, embalagem padronizada em fábrica — e o custo por unidade é uma fração do artesanal.
Parte da precificação artesanal é comunicação: ingrediente natural, produção em pequena escala, receita própria, sem conservantes. Isso tem valor — e o cliente que entende esse diferencial paga por ele. O problema não é cobrar R$ 18,00 por uma geleia de qualidade. O problema é vender a R$ 8,00 tentando competir com a indústria no preço, enquanto carrega um custo que a indústria não tem.
Se o custo real é R$ 8,14 e você cobra R$ 8,00, não está vendendo — está doando, e ainda pagando pra fazer isso.
Quando revisar o preço
Produto artesanal tem custo variável, especialmente quando a matéria-prima é fruta ou ingrediente sazonal. Revise o custo do lote sempre que:
- O preço de um ingrediente principal subir mais de 5%
- Você mudar de fornecedor ou de embalagem
- O rendimento do lote mudar — sinal de que a receita ou o processo mudou
- Você aumentar o valor da própria hora (o que deve acontecer à medida que o negócio cresce)
Uma alta de R$ 2,00/kg no morango representa R$ 3,00 a mais no custo do lote — o que sobe o custo por pote de R$ 8,14 para R$ 8,44. Em 50 potes vendidos por mês, são R$ 15,00 de margem que desaparecem sem aviso. Manter o custo atualizado é o que permite agir antes de o lucro encolher.
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